O padre Lino Mayer, demitido do cargo de diretor da Escola São Luiz pelo bispo diocesano Dom Jorge Pierozan, precisou de atendimento médico ontem (14). O sacerdote estava isolado em sua propriedade, em Domingos Petroline, desde a inesperada demissão, na última segunda-feira, notícia que lhe apanhou de surpresa e chocou a comunidade escolar. A reação foi imediata, com protestos que chegaram à interrupção do trânsito na Avenida Pelotas, onde está situada a escola. Nesta sexta-feira, o padre saiu de seu retraimento no meio rural para ir à Diocese, chamado para uma conversa pelo bispo Pierozan. Ele teve hipertensão emocional, provocada pelo estresse dos últimos dias e precisou receber atendimento na Unimed. Após ser medicado e estabilizado, ainda conseguiu conversar com o chefe da Igreja Católica. O bispo ainda não se pronunciou oficialmente a respeito, mas já demitiu o diretor que havia sido introduzido no cargo segunda-feira no lugar do padre. O episódio, da forma como ocorreu, é inédito na história da igreja em Rio Grande.

SERMÃO CORAJOSO

Abatido, o padre Lino Mayer (foto) reuniu forças para celebrar missa na Paróquia Sagrada Família, ao lado da escola, no início da noite de sexta-feira. A celebração recebeu um número de pessoas acima do normal (fotos) e o padre foi muito aplaudido. Muitas pessoas choraram durante a manifestação de Lino. Ele construiu uma fala, apoiado nas Sagradas Escrituras, sobre o episódio de sua demissão. Descobriu pelo Facebook [da Diocese] que tinha sido indicado outro nome para seu lugar. Sem saber a motivação da mudança, resolveu ficar isolado em sua casa, no meio rural, até que o bispo o chamasse para conversar. Agradeceu e elogiou as inúmeras manifestações feitas pelas famílias e estudantes nos últimos dias.

Em Domingos Petroline, os quatro dias de isolamento do padre foram de angústia, o que tratava com oração. “Sentava debaixo de uma figueira para acompanhar as manifestações de apoio”, revelou o padre. Confessou ainda durante sua fala na igreja, que no isolamento vomitava, não dormia e tinha dificuldade para se alimentar.
“A principal etapa foi vencida”, disse ele, referindo-se à promessa da autoridade maior da Diocese de não mudar a proposta pedagógica da escola, o que as famílias não abrem mão para manterem os filhos matriculados. “A permanência do corpo docente e o afastamento desse senhor– que vocês conhecem melhor do que eu, é mérito de todos aqueles que tiveram a coragem e a ousadia de soltar sua voz”.

AINDA ESTOU AQUI

Inspirado no filme ‘Ainda estou aqui”, que deu um Oscar ao Brasil, o padre brincou em seu sermão e tascou: “ainda estamos aqui”. Reconheceu que toda luta reivindicatória deixa sequelas. “Isso vai trazer traumas, sem dúvida”. O episódio provocado pela falta de diálogo do bispo de Rio Grande, gerador de grande inquietação da comunidade escolar, foi parar em instâncias superiores da Igreja Católica como a Arquidiocese de Pelotas, pertencente a uma regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O caso também foi parar no gabinete de Dom Jacinto Bergmann, arcebispo metropolitano de Pelotas. Igualmente, o episódio está sendo visto nas instâncias da Igreja em Porto Alegre, e na próxima segunda-feira o caso será levado por uma autoridade federal em visita à Nunciatura Apostólica no Brasil, que é a representação diplomática do Sumo Pontífice no Brasil. O núncio apostólico no Brasil, Dom Giambattista Diquatro, é quem receberá informações sobre o caso, apurou o Site. O Sindicato dos Professores do Ensino Privado (Sinpro/RS) também está vendo o rumoroso episódio, de grande repercussão nas redes sociais.

FALTA DE DIÁLOGO

Após a celebração, o padre concordou em receber o Site Edson Costa Repórter para uma conversa, quando gravou uma mensagem, divulgada na noite de sexta-feira nas plataformas da Rede ECR de Jornalismo. Natural de Santa Catarina, hoje aos 61 anos, em 2006 chegou a Rio Grande, no Dia do Amigo, 20 de julho. Em 2015 recebeu da Câmara Municipal o título de Cidadão Rio-Grandino, pelas obras sociais e em favor da educação.
Lino Mayer disse que tudo isto poderia ter sido evitado. “Sinto-me desvalorizado pela falta de diálogo e abertura”. Ele vê autoritarismo na forma como tudo aconteceu, o que poderia ter sido contornado com diálogo.

Mesmo demitido do cargo de diretor da São Luiz Gonzaga, com a qual mantinha vínculo empregatício, gostaria de seguir no estabelecimento para, pelo menos, fazer o que chamou de transição segura. Contudo, a decisão é do bispo Dom Jorge Pierozan. O bispo foi instado três vezes pelo Site Edson Costa Repórter para dar sua versão sobre os fatos, mas mergulhou no silêncio. A Diocese também não emitiu nota à comunidade sobre o polêmico caso. Ao Site, o padre disse que pretende ficar em Rio Grande, mas não tem certeza disso, pois ainda aguarda uma posição do bispo, que reconhece ser a maior autoridade hierárquica na igreja por aqui.

(Foto: Site Edson Costa Repórter)